Fonoaudióloga Fala Sobre a Dislalia

Fazer trocas de fonemas para falar não deve ser considerado normal. O DistúrbioDislalia-infantil Fonológico, também conhecido como Dislalia, é famoso por ser o distúrbio encontrado no personagem Cebolinha, que troca a letra “R” por “L”. Em entrevista, a fonoaudióloga Vanessa Damaceno explica quais são os sintomas, causas e tratamentos da Dislalia.

Pergunta – Vanessa, o que vem a ser a Dislalia?

Resposta – Hoje a Dislalia é chamada de Distúrbio Fonológico. É quando o sujeito troca os sons dos fonemas e acaba falando Pola, ao invés de Bola, Poneca no lugar de Boneca, e por aí vai. É uma dificuldade de linguagem do sujeito, que independe de idade.

Também existe a Alteração Fonológica, que vai além das trocas de fonemas. É algo neurológico ou genético que, neste caso, também pode ocasionar a dislalia.

P – Então existe a Alteração Fonológica e o Distúrbio Fonológico?

R – Isso. O distúrbio fonológico é a dislalia, quando ocorrem apenas as trocas dos sons por questões como influência, alguma deficiência física na boca…

P – Quais são as causas da dislalia?

R – São inúmeras as causas. Podem ser por troca dentária, freio bucal curto, consequências do uso prolongado de chupeta, influência do meio em que vive, por um hábito vicioso, se a língua vai muito para frente na hora de falar…

A dislalia também pode ser decorrente de perda auditiva, e isso nós podemos perceber quando a criança começa a trocar os fonemas sonoros pelos fonemas surdos. A dislalia também pode ocorrer por consequências de alterações neurológicas.

P – Explica para a gente o que são os fonemas sonoros e os surdos?

R – Fonemas sonoros são o B,D,V,Z,J,G. Já os fonemas surdos são o P,F,T,S,X, e os sons de Ca ou Ka. Quando a criança passa a trocar as palavras escritas com B para P, por exemplo, ela pode estar sinalizando alguma surdez. Não podemos generalizar, mas devemos nos atentar.

P – Você comentou que uma das causas da dislalia pode ser a influência do meio em que vive. Então os pais devem ficar atentos ao falar com a criança igual a ela, por exemplo: pepeta (chupeta), pépé (pé)?

R -Claro! Normalmente o meio influencia a fala da criança, sim. Então, se os pais infantilizam o vocabulário, a criança que está no período de alfabetização da linguagem será prejudicada. Ela estará sendo estimulada a adquirir a dislalia por um hábito vicioso.

É importante que os pais falem corretamente com a criança, ainda que ela não consiga pronunciar as palavras de forma correta.

P – A dislalia é tratável?

R – Sim. Todos os tipos de dislalia são tratáveis, seja por hábito vicioso, por chupeta, por surdez, ou tenha, por exemplo, síndrome de down.

Já a criança com problema auditivo irá fazer uma reabilitação com o fonoaudiólogo, conseguirá pronunciar as palavras de uma maneira melhor, mas não será 100% como uma criança ouvinte. Ele conseguirá ver a diferença, por exemplo, do P e do B, mas de alguma forma a fala vai ficar diferente.

Normalmente, nós conseguimos adequar a linguagem, salvo nos casos em que vem junto a alteração fonológica. Por exemplo, o portador de down tem a parte oral alterada, normalmente a língua é mais flácida e, com isso, ele distorce os sons. A língua é um músculo e a gente vai conseguir trabalhar, mostrando a diferença de Bola e Mola, por exemplo. A boca fica igual em ambas as palavras, porém na primeira a vibração é oral e na outra a vibração é nasal. Ele vai conseguir produzir os sons quase que corretamente, mas ele não consegue ter a consciência plena de que para fazer o B eu vou precisar vibrar e para fazer o M eu vou precisar juntar os lábios.

O tratamento para quem apresenta apenas o distúrbio fonológico costuma ser 100%. Quando ele vem com outra alteração, como a perda auditiva ou síndrome de down, conseguimos fazer uma adaptação na fala, mas não vamos conseguir fazer 100%, pois existe outra questão.

P – Além dessas causas já citadas, existe alguma causa genética para a dislalia?

R -Não, normalmente ela vem por algum vício, uso de chupeta, interferência do meio mesmo.

Por exemplo, agora tenho um caso em que a criança de 3 anos está trocando o som de CA por TA, e o som de GA por DA, e ela não tem nada, não tem problema de dente… É simplesmente uma má postura, um hábito vicioso. A mãe dessa criança começou a falar como ela (OÔ – cocô) e, a partir daí, a criança começou a fazer as trocas.

P – Qual é o período ideal para a criança desenvolver a linguagem oral?

R -Então, o período de aquisição da linguagem é de 0 até 4 anos e meio, estendendo até 5 anos. Isso porque nessa idade a criança já está um pouco mais madura e consegue ter consciência de que existem sons parecidos, porém diferentes.

P – Mas não precisa esperar os 4, 5 anos para procurar um fonoaudiólogo, caso veja dificuldades na linguagem oral da criança?

R -Exatamente. Não devem esperar. Como está justamente no período de aquisição, em desenvolvimento, fica mais fácil para fazer o tratamento, evitando que a dificuldade se torne um hábito vicioso mais tarde. Lógico que não vamos exigir de uma criança de 2 anos que ela fale “BRaço”, “FLor”.

Agora, se a criança está no meio desse período (2,3,anos) e fala Poneca (boneca), aí é mais crítico. Sempre que houver uma troca de um fonema sonoro (B;D;V;Z;J;G) para um fonema surdo (P;F;T;S;X;CA;KA), temos que ficar atentos, pois pode ser que a dislalia seja consequência de surdez. Não podemos generalizar, mas é bom se atentar, quanto antes realizar o tratamento, melhor será o resultado.

Quando um adulto vem tratar e nunca fez fono, será mais difícil fazer uma reabilitação, pois ele já terá seus vícios. Não que seja impossível, mas o caminho é muito maior.

P – Para realizar um tratamento com sucesso, normalmente, quanto tempo é necessário?

Não dá para falar em 3 meses ou 9 meses, cada um tem seu tempo, vai depender até mesmo da empatia do paciente com a criança. Vai depender muito, principalmente, do desenvolvimento da criança e do profissional saber cativá-la para que o tratamento seja mais produtivo.

R- De todos os seus casos, existe algum que te marcou muito?

Lembro-me de um paciente que tinha 3 anos e meio de idade. O seu período de adaptação foi muito demorado, porque ele não entrava na sala sem a mãe, e ela também fazia questão disso. Após seis meses dessa maneira, eu vetei a participação dela nas sessões. No primeiro dia só nosso, ele chorou durante os 50 minutos do atendimento, o restante nós conseguimos fazer o trabalho proposto, e ele já não queria ir embora. A partir desse dia, consegui fazer a instalação dos fonemas com ele em 15 sessões, ou seja, 2 meses e meio.

 P – De alguma forma, ensinar as letras precocemente para um bebê pode ser prejudicial?

R – Há casos e casos, mas pode prejudicar, sim. É legal e é um estímulo, só que a criança, ao brincar, pode acabar se confundindo e fazendo o espelhamento das letras. Inclusive, estou com um caso desses. A criança tinha 11 meses quando a mãe, que é professora, começou a ensiná-la através de tapetes com as letras do alfabeto. Hoje, com 3 anos de idade, ela está com o distúrbio fonológico, fazendo o espelhamento das letras, o “p” vira “b” que vira “d” e assim por diante. Primeiro estou trabalhando a questão da lateralidade com ela, para que, a hora em que começar a se conscientizar disso, produza melhor os sons.

P – E quando chega o período escolar, qual é a influência dos professores?

Hoje em dia já temos professores que se atentam e percebem que a criança não está acompanhando a turma ou que está realizando trocas. Mas, normalmente, as escolas indicam a criança para um fonoaudiólogo apenas quando há trocas do P para o B. Eles não têm consciência de qual momento mandar a criança para a fono, se o que ocorre é um distúrbio fonológico ou apenas pedagógico… O professor não tem conhecimento para realizar um acompanhamento e fazer as introduções fonoaudiológicas.

Quando a criança vai à escola, praticamente já está com a linguagem falada adquirida, vai para adquirir a linguagem escrita. Porém, quando ela já chega com a dislalia, fica uma questão mais crítica, pois ela vai fazer a transcrição fonética. Por isso é importante ficar atento nesse processo de aquisição, pois quando a criança for à escola, já deve estar produzindo o som mais ou menos próximo do padrão, ou corretamente. O fonoaudiólogo deve entrar antes desse período escolar.

P – Vanessa, quais as dicas e recomendações que você tem a oferecer?

R – Então, referente às causas do distúrbio fonológico (dislalia), eu não acho que não tenha que dá ou que exista uma idade limite para a criança usar a chupeta, mas tudo em excesso é negativo. Uma idade determinada não tem, mas até os 3 anos é aceitável. Após essa idade já pode virar um caso crítico, comprometendo a dentição, respiração e, consequentemente, a reprodução dos sons. Então, evite o excesso! Dê quando necessário, sugira trocas, seja rigoroso com essas trocas!

Quando a criança estiver brincando sozinha e estiver começando a falar, é importante se comunicar com a criança, não apenas deixá-la brincando com objetos ou bonecos que cantam, enfim.

Não utilizar a fala infantilizada, falar corretamente e com vocabulário simples. A criança está começando a vivenciar o mundo auditivo. E Evite o diminutivo. Para a criança é muito mais fácil aprender a palavra BOLA que a palavra BOLINHA.

Evite ficar adivinhando os gestos da criança, dê estímulo para que ela fale, dê opções caso ela não fale o que quer.

 

 Fique atento aos sinais de seus filhos e, caso perceba algo diferente, busque ajuda de um profissional. Essa foi a entrevista sobre o distúrbio da fala (dislalia) com a fonoaudióloga Wanessa Damaceno.

 

Jornalista Anne Mascarenhas

Fonoaudióloga Vanessa Damaceno

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